domingo, 28 de fevereiro de 2010

Sanitário seco

A retrete que não usa água e ainda recicla o seu conteúdo virou bandeira contra o desperdício.
O vaso sanitário como o conhecemos pode estar com os dias contados. Se depender de um grupo de ecologistas que está fazendo barulho contra as sanitas actuais, no futuro nenhuma gota de água será desperdiçada e, como bónus, todos terão fertilizante grátis para o jardim. Como?

Simples. Vá ao WC, faça as necessidades e, em vez de dar a descarga, carregue uma pá com serradura para despejar no fundo do vaso sanitário. Em condições ideais de humidade e temperatura, essa mistura vai-se decompor e virar adubo dentro de um compartimento sob a própria retrete.

"O único problema contra a compostagem humana é o preconceito", diz o escritor e marceneiro americano Joseph Jenkins, de 57 anos, principal porta-voz do "sanitário seco", também conhecido como "sanitário de compostagem" (o nome técnico da decomposição de matéria orgânica para a produção de adubo). Jenkins ficou conhecido como Mr. Humanure (trocadilho com human, "humano", e manure, "excremento").

O grande trunfo do sistema é evitar a contaminação da água. É com essa bandeira ambiental que Jenkins vende a ideia do cócó reciclado. Seu livro Humanure handbook: a guide to composting human manure (algo como Manual para compostar excremento humano) faz sucesso entre ambientalistas.

Depois do livro, algumas iniciativas surgiram nos Estados Unidos para colocar a ideia em prática. Em julho, a ONG Rizhome Collective ganhou uma licença para construir o primeiro WC ecológico "oficial" do Texas. Parte da população achou a ideia nojenta. Mas um argumento derrubou a resistência: o sanitário seco economizaria energia gasta no tratamento de água e esgoto e a povoação cedeu. Na Califórnia, a empresa McPoop fez um acordo para montar WC's secos em eventos públicos. Para convencer a vigilância sanitária, usaram o argumento de que um WC químico é a versão moderna da fossa medieval.

E qual é o cheiro do sanitário seco? Supostamente, nenhum. Quando o sistema funciona correctamente, uma reacção química entre o nitrogénio das fezes e o carbono da serradura cria uma mistura estável e inodora. Para convencer as pessoas a aderir ao WC seco, activistas fizeram em Chicago uma experiência. Propuseram o uso do WC seco a 35 vizinhos: 22 deles aceitaram. O resultado foi uma "doação" de mais de 7 mil litros de excrementos.

Nenhuma dessas ideias, no entanto, prenuncia a abolição da descarga. "A maioria das leis sanitárias diz que se deve livrar dos dejectos humanos", diz Jenkins. "Isso impede projectos em larga escala." Outro entrave é a necessidade, no caso dos sanitários secos compactos, de um compartimento externo para a compostagem propriamente dita. Num apartamento pequeno, a reciclagem de fezes é inviável. Ao menos para quem não quer problemas com as autoridades sanitárias.

A ideia do sanitário seco é antiga. Em 1869, impressionado com o perigo de contaminação das fossas abertas, o padre inglês Henry Moule criou um sanitário seco parecido com os actuais. Com a invenção da válvula de descarga, no início do século XX, o sanitário seco caiu em desuso. Mas os discípulos de Moule ainda existem. Joseph Jenkins é um deles. Além de escrever, ele vende os seus próprios sanitários compactos.

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